Foto da net (desconheço autor)
O silêncio
é um pano escuro
que escorre nas tuas mãos
a inocência do teu rosto!
José M. Silva
Poema inédito
O silêncio
é um pano escuro
que escorre nas tuas mãos
a inocência do teu rosto!
José M. Silva
Poema inédito
Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-iris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.
in "viagem através de uma nebulosa", 1960
Quando vou ao baú, remexer normalmente
encontro boa e bela poesia, este poema estava
esquecido! Disse estava!... Pois, mas já não está! ;-)
Um excelente poema, de uma só estrofe, com algumas
características líricas. Em que o Poeta, revela uma
visão ambígua, emotiva e pessoal sobre a amizade.
Com um discurso metafísico e rico em imagens.
Uma enorme carga emotiva em apenas seis versos!
Os meus parabéns ao Mestre Ramos Rosa!
José M. Silva
Foto-Autor(a) HELDER J BARRETO
A bola para quem gosta de ir na bola:
é quadrada, velada, esquinada…
A bola para quem gosta de ir à bola
é um mundo novo de largos horizontes.
A bola para quem gosta de ir na bola:
é formatada, globalizada, sem sentidos…
A bola para quem gosta de ir à bola
é um apelo redentor à criatividade.
Os que vão na bola movem-se sempre:
em linha recta, perfilados, empalados…
Respiram um fumo negro e castrado.
Os que vão à bola são autónomos, criam novas
formas repletas de curvas e contracurvas.
Inalam o ar libertador e multicolor do verbo, que
espreita por trás do olhar como que ouvindo as cores.
Brincando com palavras e deleitamentos poéticos
sem peias rumo à plenitude, num voo nocturno
só versado a quem lê por dentro.

Vejo a cada passo
o prolongado passo
das sombras…
Posicionadas nas margens
enfurecidas do rio.
eminentes ecos
adivinham tempestades.
A água corre em searas alheias
e a luz fere a obscuridade das sombras.
Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.
Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.
Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.
Eugénio de Andrade
No meu livro!... Há um silêncio acumulado…
há um ar exaltado que esmorece as amarras…
o homem é um sonho frágil e tem sede de vampiro…
eleva-se num mundo glorificado à sua imagem e,
metamorfoseia-o ora modelando-o, ora roendo a
corda que sustêm a ponte que o separa do abismo…
o tempo é um espaço fragmentado ligado por dois
pontos e um registo, registo com que rompo
as “sombras”.
01/07/2010 José M. Silva
Por vezes, as ruínas do tempo
Por vezes, as ruínas do tempo
emergem como palavras indizíveis.
Infiltram-se húmidas e frias
no esvoaçar enevoado das mentes.
A luz é um reino privilegiado
um ser longínquo que habita
no segredo das palavras
e das vozes, que percorrem
como átomos o inaudito
som do silêncio.
Silêncio que rompe as sombras..
Do livro «As Sombras» 2010
Nesta terrena e curta passagem
o endereço próximo situa-se,
na futilidade das palavras.
As que vivem encantos e desencantos
enganos e desenganos. Por vezes:
amadas, odiadas, inoportunas…
Por vezes: pálidas, díspares, obsoletas…
Bloqueiam sentidos, arquivam emoções,
escrevem livros e decifram códigos
aos olhos dos supra alfarrábios.
José M. Silva
Do Livro «As Sombras» 2010
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Eugénio de Andrade

A clareira do bosque é um centro
Em que nem sempre se consegue entrar
É um outro reino que a alma habita e guarda
Parece como que o vazio - ou o nada ou o vazio -
Que estarão presentes ou continuamente latentes na vida humana
E para não ser devorado pelo nada ou o vazio
Haverá que juntá-los num só
Centro é também o coração
Porque é o único que do nosso ser se ouve
E só por ele
Os privilegiados organismos que o têm
Se ouvem a si mesmos
Só os astros longínquos, puros,
Enquanto forem inacessíveis à sua colonização
proporcionarão a imagem real
De um ser idêntico à sua vida inocente
Como se só tivesse sido criado sem ter de nascer
Fica surdo e mudo,
Circunstancialmente, o coração
Deixa então todo o espaço às operações da mente
Que se movem assim
Sem assistência alguma
Abandonadas a si mesmas.
Maria Zambrano
É lento e frio
este amanhecer
que a Março
abre as portas
ao som da música
que me atravessa o sono
e me aparece nesta
visão única, que guardo
dum tal respeito e semelhança.
A vida passa e tu não estás
procuro-te no fundo
bem no fundo de mim.
Vêem-me à lembrança
recordações daquele último dia
do teu olhar mais velho e cristalino
da água que te corria o rosto
e da ternura que jorrava em ti
o desaparecer dum sonho…
Recordo-te a cada passo
como se o passo, do passo
passasse a cada instante
em que te penso e me apareces
naquele derradeiro olhar
voltado sobre os ombros
tão profundo e sereno
na estação do teu mar.
E que seria o voltar
que te visse eu
no quanto a vista alcança
na estação do comboio
pedalando o triciclo que me havias dado…
José M. Silva
(como se escreve um poema de amor)
eu vou dizer.
Como se estivesse apaixonado
Falar desse teu corpo exagerado
Que apenas aos meus olhos ganha cor,
De um coração em mim anteestreado
Num palco onde jurei fazer-te amor.
Esculpir esses cabelos impossíveis
Que nunca mãos algumas alisaram,
Desflorar esses vales inacessíveis
Onde os outros de vésperas naufragaram.
Contar como se ardesse de desejo
As pernas de cetim que tu me abriste
E a boca que se derreteu num beijo,
Soluço de sorriso que desiste.
Dizer, porquê? Se todo o mundo sabe
Que quando se ama não se escreve
E que, então, o tempo todo cabe
FERNANDO TAVARES RODRIGUES
(nasceu em Lisboa em 1954)
De repente, o fogo veio
E aos poucos o dia calou a sua voz.
O silêncio era frio
E o nevoeiro repleto de raiva e ódio
Estendeu as suas garras
Sobre o Portugal futuro.
Os clarões viam-se ali bem de perto
Mais parecia um tempo sórdido de guerra
Onde os homens caem
Abatidos pela ignorância da terra.
E nós deambulávamos perdidos
Escondidos, tontos e amordaçados.
O medo paralisava-nos as pernas
E o suor frio escorria pela face
Entristecida por tanta madrugada perdida
Quando ouvimos uma voz que dizia:
“reparem naquele fogo…
Não é uma fogueira qualquer
Nem tão pouco um fogo que arde sem se ver.
É um contentamento descontente
Que embala o corpo sofrido
Que esmaga o sonho do espírito
Nessa dor que queima até à alma
Na amargura do nosso doer.”
Sim, é uma fogueira sem brilho
Que aquece no arrepio
De quem morre até morrer.
É uma fogueira de má sorte
Que apenas conduz à morte.
Rui Fonseca em No profundo da alma lusitana
António Rui Arrepia Fonseca natural de Foz-Côa.
Licenciado em Filosofia, pela Universidade do Porto.
Inserido numa lógica universal este livro, Leva-nos
numa viagem: histórico-cultural, consciente e analítica da
alma Lusitana. Com abordagens às terras de Ofiúsa,
ao Portugal Templário, à Inquisição...
Vivemos na memória d´outros tempos
e se tudo conquistamos tudo perdemos.
Os cantares? Esses… afagam a alma.
Entre as exaltadas e incertas ondas
a conquista de hoje, é o sangue do amanha.
O presente é quem o vê, o futuro não vale nada
a liberdade tem cancro, o amor padece de doença terminal.
Orgulho!.. Esse, o das auroras, dos feitos, sim muito!
Esses d´alma, que por si se valeram e em desencantos caíram.
De ganho. Louvores no juízo final, e uma lapide, na cova funda!..
José M. Silva
Passa…
Na ilusão errónea
dos sentidos
num deleitoso ego
e volúvel distúrbio
iluminando a máscara
com intuições vazias
e sentidos cegos.
Passa…
Gaivota sem asas
sem vestido nem manto
honra ou quebranto
ou brisa no mar alto.
As fontes em que se sacia
são promessas despojadas
do seu encanto.
Passa…
Despida d´amor
ao som da seda e do veludo
perdida de sóis e de luas
achada de ares de mares.
Passa…
Formosa e bela
em redor dos seus passos
com encantos e quimeras…
Talvez houvesse uma flor!